Pensamentos Alados

Eu tinha pensamentos alados. Eles iam pra onde queriam. Nem sempre voltavam. Alguns, no entanto, tinham a época certa para retornar. Sempre que o tempo ficava mais frio eles chegavam com suas asas maiores, trazendo rajadas de vento mais fortes que qualquer tempestade. Apesar da impressão de magnitude que causavam eu sabia que eles cresciam muito mais quando longe de mim.

Aqueles eram pensamentos misteriosos. Eu nunca me dava conta de como eles estariam da próxima vez que os tocasse até que eles me arroubavam e me levavam ainda mais acima do que parecia seguro da última vez. Parece que eles não eram constituídos de uma matéria só. Havia um bocado de sentimento em suas cores, tenho certeza. E suas cores me cegavam. Eu podia passar dias, semanas, contemplando a mistura indefinida que se formava em suas asas quando dançavam comigo. Eles eram incrivelmente belos, mas eu suspeitava que corria algum risco sob suas presenças.

Quando o sol brilhava mais forte eles se afastavam, procuravam alimento em outra escuridão distante. Engraçado é que era nessas épocas que eu sentia mais frio e um vazio tão grande que se transformava em dor. Eu precisava daquele turbilhão de vento e pó, daquele movimento externo que desviaria meus olhos de mim. Toda vez que eles voltavam eu tinha algum descanso de tudo o que não gostaria de ver.

Hoje nevou. O frio que senti percorreu todas as vértebras da minha espinha, de baixo para cima, e se alojou no meu cérebro. Apesar do ambiente propício, os pensamentos não voltaram. Talvez houvessem perdido suas asas por aí e tiveram vergonha de voltar sem as cores impressionantes de suas penas. Mal sabiam eles que o que eu mais admirava era como conseguiam ter sombras tão absurdamente definidas.

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Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

4 Comments

  • Mari Andrade on 13 de novembro de 2011

    As vezes o que nos atrai não é o óbvio…
    Acho que só quem não sabe ser obvio consegue admirar a beleza e a simplicidade de diferentes formas.

    Lindo o texto, meu amor!
    =D amo sua escrita!

    • Paola Giovana on 13 de novembro de 2011

      Ei linda!

      Às vezes entendo seu mundo e vejo as coisas com os olhos de dentro. Nessa perspectiva quase nada é óbvio. Muita coisa é colorida e marcante!

      Amo você! =*

  • érico cordeiro on 16 de fevereiro de 2012

    Paola,
    Visitando sua casa pela primeira vez e já me tornei um admirador confesso dos seus textos.
    Como você escreve bem, menina! Vou dar uma lida em seus escritos, devagarzinho, pra absorver bem e me deliciar.
    Vou colocar um link no Jazz + Bossa, ok?
    Beijo grande.

    • Paola Giovana on 16 de fevereiro de 2012

      Ei Érico! Fico muito feliz por você ter gostado! Espero que volte e que os outros textos também te toquem =)

      Obrigada pela visita e pelo link! Vou dar uma passadinha no seu blog em breve!

      Bjos!

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