Raio

Como um raio. Era assim que sua presença se anunciava ao redor. Não tinha medo, não tinha pudor. Era um raio. E caía violentamente sobre nossas cabeças, sobre nossos instintos. Instantaneamente causava suor. Seca, brilhante e fulgás. Ela passava e tomava o seu lugar,  cheia de si. De repente, havia só o seu rastro. O burburinho que permanecia como vestígio de seu domínio sobre nós. Ela era. E sua rápida aparição a tornava muito mais do que qualquer um de nós poderia suportar.

Naquela sexta-feira veio como luz, e não deixou vestígios. Raio sem som, o silêncio que carregava com ela aquele dia era assustador. Nem mesmo eu, a mais eloquente de todas, conseguia abrir a boca em meio a tanta  escuridão. Sabíamos, todos, sabíamos completamente, que aquela havia sido sua derradeira aparição.

A certeza era confirmada pelo modo como ela jamais houvera tocado aquele véu. Desta vez, desta única e última vez, ela o arrancara da face, poucos segundos antes de irromper chorando pela porta de bar de bangue-bangue. Quando se foi, o único som que se ouvia era o da porta batendo. O martelar insuportável da sua ausência contínua.

Completamente imóvel e muda, eu só conseguia pensar no que seria de nós. No que seria de toda aquela gente que se sentava ali em cada sexta-feira, de cada semana, de cada mês, de todo ano bissexto, só para observá-la, intocável e infeliz no piano negro lustroso, trágico por si só. O que seria da espera, da angustiante espera que costumava durar apenas quatro anos, se agora ela seria para sempre, ou tornar-se-ia espera pelo nunca mais?

Ela havia me olhado. Eu sabia que ela estava se despedindo quando me viu, segundos antes de transpassar aquela porta infernal para sempre. Por isso, também, me mantinha muda. Sabia que o gesto de arrancar o véu antes de sair era sua súplica extrema para mim, a escolhida no meio daquela infinidade de pessoas que a idolatravam. Era eu, somente eu, a alma errante e covarde que ela havia escolhido para ser sua e torná-la ainda mais infeliz. Eu não pude, não fui capaz de tornar minha a sua existência, nem de trocar de solidão com ela.

Por isso se despedira daquela forma implacável e perturbadora, raio sem direção. Revelara a todos o mistério que resguardara de mim, a escolhida, mesmo no instante anterior à partida, em nossa única conversa. A sensação de ser especial havia durado pouco, o suficiente apenas para não esquecer a cegueira causada por sua luz potencializada pelo desespero. O bliss, o êxtase, a metafísica toda do seu corpo desvanecera junto com o véu que ela rasgou quando saiu. Agora todos eram especiais, escolhidos para sofrer com ela a dor de ser um raio.

Sobre o Autor

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Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

2 Comentários

  • carina on 19 de junho de 2011

    esse texto também é muito interessante…a simbologia do raio…aliás você gosta de raio né? essa força luminosa e explosiva da natureza! a inspiração de bliss veio desse texto?

    • Paola Giovana on 21 de junho de 2011

      Engraçado… Acho que esse texto veio depois de Bliss. Nunca tinha pensado em uma conexão entre as duas coisas! Mesmo tendo a palavra explícita ali…

      Sim, eu gosto dos raios! Essa coisa absurda que nos assusta e fascina, cega e ilumina… #bregafeelings

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