Verbo Caído

Nunca vou me esquecer da chuva daquela tarde. Não era apenas ela que caía. Eu também me diluía, gota a gota, carne-viva escorrendo pelas grades dos esgotos. Parecia fácil, não fosse a dor que me tomava a cada gole que a terra bebia impiedosamente, sedentamente, rigorosa. Depois de me atirar em vários moinhos, resolvi não adiar mais o momento do fim. Levada pelos lençóis, caí desta vez no mar. Ali, fiz-me mártir, sangrei novamente, até secar nas dunas de sal. Fênix, renasci da areia e esqueci as cinzas. Lá fora ainda chovia e o fogo quente e úmido não conseguia me consumir completamente. Resolvi erguer-me, sem asas, e caminhar um pouco até que elas resolvessem aparecer e me levar.

Foi neste instante que te vi novamente. Pela sua sombra reconheci até o último fio de cabelo negro que me prendia. Era outro o corpo que te cobria, mas por baixo da pele a mesma luz cintilante e, acima, por fora, os mesmos fios negros, quase-antenas, que sempre me atraíam. Sem peso, e ainda sem asas, depositei-me ali mesmo, nos caracóis daquele ninho expressionista que cobria suas idéias mais excêntricas. Era ali o meu lugar, verbo caído não sei de onde. Nem nome tinha, nem palavra específica um dia fora. Mas tive casa, no seu pensamento.

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Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

2 Comments

  • carina on 19 de junho de 2011

    eu gosto muito desse texto..acho ele interessantíssimo, e curioso, como uma fábula…haja inspiração! =)

  • Paola Giovana on 20 de junho de 2011

    Este também é um dos meus preferidos! Não sei se tem o que uma fábula precisa ter. Acho que não… Mas gosto das evocações visuais e da mistura usada pra criar essas impressões. Apenas mais uma tentativa de organizar um caos interno! rs

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