Vertigens

De uma só vez. Por uma só voz meu coração batia em ritmo de tango. A qualquer instante ele poderia parar, desistir de sufocar o pranto e irromper num choro de lágrimas de sangue, compulsivo. Daí a pouco, uma valsa para um suicídio. Não mais meu canto, não mais meu riso. Daí a pouco nada mais seria preciso daquilo que um dia dizia-se que eu fosse.

Em uma só voz. A valsa tocava, o tango do meu coração descompassava. E era simplesmente mais um daqueles instantes em que a força cala e a dor grita. Com paixão?? … Sem amor. A valsa era triste e o tango não quereria continuar. De uma só vez: nenhuma voz só. Só o silêncio de escrúpulos e a solidez da solidão. Eu já sorvia o sangue que jorrava, agora só escuridão e o doce levemente picante do grito. Acima do som eu podia ver meu próprio corpo jogado, e era frio, e era só. Não mais a dor, não mais a dúvida, não mais o perdão. Sempre é tarde. Morrer é fácil, viver é que é difícil. … Era difícil.

Sem voz para mover-me, sem versos pra enferrujarem nos meus dentes quase insípidos. Jazia o tango na mão, e a valsa insistente de fundo, bem de fundo, estatelada no chão. Por uma só vez. Eu faria o que fosse preciso: sufocaria o grito, o pranto e o ranger de minhas pernas desritmadas. Dançaria a valsa, esqueceria o tango e, quem sabe, a noite não seria demasiadamente derradeira. Era urgente valsar. Junto à valsa, estatelei-me: não passaria do chão e, se aquilo já era o inferno, se o sangue também urgia, rasgava e abafava meu cantar, só me faltava morrer, porque isso, sim, era irritantemente esplêndido e fácil. As marcações em contraponto eu não conseguiria alcançar. Valsei, valsei, valsei depois do gole de veneno. E tudo pra que eu caísse ainda uma outra vez, sentisse o arder das lágrimas de sangue e considerasse a hipótese de não ter morrido.

Como um sussurro, a música: de uma só vez, por uma só voz eu voltaria. O tango soprado me retomava a vida. Sobre as feridas vermelho-vivas uma leve e fina camada brilhante. Agora, cantava o tango em meu ouvido e eu só sentia, ainda, o grito. Ousou me pedir que eu levantasse, ousou beijar sofrida e intensamente meus olhos e dizer, com todo o silêncio daquela força, com toda a dor daquele grito, que percebeu que me amava. O coração que valsava em perdição retomou o ritmo, foi reconduzido ao contraponto da vida e o sangue, todo o sangue de minha alma, pingava espaçadamente, fazendo desenhos no ar.


 

Atualização em 21/11/2014: Foto da experimentação na aula de Jogos Teatrais II – 2º semestre de 2014 – UFOP. Fotógrafa: Kelvia Murielle. Atores na imagem: Nathane Alves e Rodrigo Malaspina

Sobre o Autor

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Paola Giovana

Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

2 Comentários

  • carina on 19 de junho de 2011

    uau,intenso e triste como o próprio tango. E o amor, sempre ele como instrumento de redenção pra nossas crises mais agudas. Só o amor cura o desespero da solidão, e o amor também tem gosto de sangue. “E era simplesmente mais um daqueles instantes em que a força cala e a dor grita. Com paixão?? … Sem amor. A valsa era triste e o tango não quereria continuar. De uma só vez: nenhuma voz só. Só o silêncio de escrúpulos e a solidez da solidão. ” adorei o jogo de palavras! excelente Paola!

  • Paola Giovana on 21 de junho de 2011

    Ah, menina, às vezes parece que escrevo sobre os mesmos temas. É bom brincar com as palavras, pelo menos… Bom que gostou! =D

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