Sobre Ausências

É tão estranho isso de pensar na morte como a única saída. É ainda mais estranho doer tanto no coração a partida de alguém que conhecia pouco, mas por quem nutria grande empatia e afinidade. As pessoas conquistam não apenas com conversas, mas também com sorrisos. E era pelo sorriso daquela garota e pelo modo como ela tratava as outras pessoas que pude perceber como ela era doce, divertida e gentil. Sempre irá doer a partida de alguém assim. Não é apenas uma perda apenas para as pessoas próximas, mas também para o mundo, tão carente de pessoas amáveis.

E aí vejo os gestos de carinho dos amigos, a tentativa de conforto para a família… Isto me faz pensar na falta de amor e de esperança que leva alguém a desistir da vida. Se há tanto amor à volta neste momento, o que faltou pra essa pessoa perceber todas estas conexões e estes sentimentos antes? Qual seria o problema que ficou maior que a vontade de viver? Sinto que nunca saberemos. E, na verdade, não é o motivo o que importa. Talvez o que importe aqui sejam as razões pelas quais guardamos tanto as manifestações de afeto enquanto as pessoas ainda estão ao nosso lado e deixamos que elas fluam apenas quando não há mais volta. Penso que um gesto ou uma palavra minha poderiam fazer diferença para esta menina, mesmo que a minha presença não fosse significativa para ela. Eu poderia ter dito: “Cara, te acho tão legal! Seu sorriso contagia!”. Talvez não fizesse diferença, mas talvez ela se sentisse melhor consigo mesma, sabendo que fazia algum bem inconsciente a quem estava perto. E aí ficamos com os “se”, os “talvez” e as pessoas continuam partindo da própria vida ou da nossa convivência. Acredito que se cada um dos amigos e parentes que agora sofrem a saudade eterna desta guria houvessem dito mais palavras de amor, houvessem oferecido mais abraços, ombros e ouvidos ela haveria ao menos tentado resistir mais, ainda que pela preocupação com a tristeza dos entes queridos. De maneira alguma culpo estas pessoas, no entanto. Cada um é responsável por suas escolhas e estas são feitas independentemente das escolhas alheias. Eles não tinham como saber, prever para evitar.

Trago apenas uma reflexão para os que continuam, em qualquer família ou círculo de amizades: vocês mostram o quanto valorizam as pessoas que amam? Verbalizam, transformam em gestos, afagos, o carinho que sentem? Se não fazem isto, por qualquer motivo que seja, por medo da rejeição, por falta de jeito, de tempo, abram seus corações! Bem ao seu lado, sem que você perceba, pode estar alguém pensando que não há sentido na própria vida. Às vezes o sentido que falta é simplesmente ser importante e amado por alguém, se sentir indispensável para os outros, por mais que pareça dispensável para si mesmo. Não basta amar, gostar, simpatizar… É preciso conectar além das redes sociais, fisicamente, olhos nos olhos. Qualquer pequeno gesto de amor pode ser justamente o que faltava, o motivo para ter o pingo de esperança para não decidir partir, pelo menos ainda. Que sejamos mais constantes, mais amáveis, mais ternos, mais presentes. Aproveito para deixar bem claro aqui o quanto cada um dos meus amigos e parentes são inestimáveis, insubstituíveis e amados. Independente de qualquer distância, tempo ou ausência, amo vocês profundamente!

Sobre o Autor

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Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

4 Comentários

  • Karen on 27 de junho de 2014

    Essa nossa incompletude nos mata aos poucos, muito mais que o passar do tempo. A gente só é quando gêmeo de alguma coisa. Nossa vontade de alcançar o outro, de poder ajudar, de chegar lá… As vezes Paola, o que acontece é que não podemos. As vezes não tocamos, as vezes nosso amor não tange o do outro, não se tocam esses círculos, as vezes não se cruzam, não viram esse infinito. As vezes não é muita dor, é só vazio, e tão grande que o outro não preenche. Acho que a gente tem que espalhar amor para o mundo para que a gente não morra de inanição, de palavra presa, de amor acumulado, ou sufocado sem se dar. A gente precisa transbordar para ser. Porém quando se deixa ser vazio, o alívio de deixar de ser é maior que a compaixão. Quem não tem amor pra si não se toca com amor do outro….

    • Paola Giovana on 28 de junho de 2014

      Ei nega! Não tinha pensado sobre o fato da incapacidade de ser tocado em alguns momentos. Às vezes rola isso também, né? Não conseguir enxergar as diversas manifestações de amor que nem sempre são tão explícitas quanto um abraço ou palavra. E vazio da gente só se preenche com nós mesmos, fato. Desejo então, no fim, que nossa capacidade de amar a nós mesmos seja sempre grande o suficiente para que o ciclo de transbordamento funcione. (Isso me lembra a Temperança, do tarô.) Ah, e obrigada pela bela resposta ( http://estouafimvoulaefalo.blogspot.com.br/2014/06/sobre-o-sentir-e-os-suicidas.html ). Já passo lá para retribuir. <3

  • Valéria on 22 de março de 2015

    Filha, quem é esta moça tão bonita?? Porquê gente que ilumina outras gentes, ainda que escolha parir, nunca deixa de ser, porque brilho de estrela não apaga, até pq, elas não existem realmente, é amais pura verdade, são somente as “almas” delas o que a gente vê e admira no céu, na verdade, elas são desencarnadas há muiiito tempo…

    • Paola Giovana on 23 de março de 2015

      Oi mãe! Infelizmente não a conheci direito… Fazia uma disciplina na turma dela quando ainda estava no curso de Design. Mas é bem como você disse mesmo, algumas pessoas, assim como as estrelas, partem, mas seu brilho fica. Te amo! <3

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