Ações realistas – Interpretação I – 24/03/2015 – DB03A04

Neste dia demos continuidade aos trabalhos sobre a ação. Fomos introduzidos, através do texto de Thomas Richards (“Ações “Realistas” na Vida Cotidiana”), às noções de Grotowski, cujo trabalho no âmbito das artes cênicas é visto a partir de sua aproximação com os estudos de Stanislavski.

Exercícios de preparação

Começamos despertando o corpo. Fizemos alguns alongamentos com o apoio da parede e em seguida fomos orientados a andar ocupando harmonicamente o espaço. Este tem sido um exercício recorrente na disciplina. Sempre há indicações para valorização da região peitoral, manutenção de um olhar consciente em relação às pessoas que passam e ao ambiente, entre outras que nos proporcionam uma presença qualificada. Desta vez foi necessário acrescentarmos também a atenção difusa, ampliando a percepção visual através da visão periférica, o que seria necessário ao próximo passo do exercício que era andar de costas sem olhar para trás, contando apenas com a indicação das palmas do professor para não nos chocarmos uns com os outros.

Nos alongamos novamente de outro modo, agora em duplas. De frente um para o outro e com as duas mãos dadas, deveríamos nos esticar para trás, nos mantendo em pé com o auxílio da força de nosso parceiro. Depois deveríamos nos segurar apenas com uma mão, alongando o lado livre do corpo, ainda com a segurança do apoio do parceiro que fazia a mesma ação. Alternamos os lados e finalizamos os exercícios.

O texto e as ações realistas

Passamos então aos estudos teóricos e discussão do texto.

Thomas Richards nos apresenta, em uma escrita bastante acessível, algumas diferenças entre o pensamento de Stanislavski e Grotowski a respeito do realismo das ações e dos estímulos necessários para alcançá-lo. Se para Stanislavski era possível alcançarmos uma proximidade maior da realidade na atuação através das ações físicas (motivadas por nosso estado interior ativado por nossas experiências pregressas e nossa memória emotiva), para Grotowski estas ações deveriam surgir de uma corrente de impulsos interiores similar à que nos motiva em nossas ações cotidianas. Não devemos nos esquecer, contudo, de que o ser humano, em situações extremas, não age com a mesma “naturalidade” que em situações comuns.

A arte do ator não está necessariamente limitada a situações realistas, a jogos sociais, à vida cotidiana. Às vezes, quanto mais alto é o nível e a qualidade dessa arte, mais ela se afasta desse fundamento realista, entrando nos domínios da excepcionalidade: a corrente viva dos impulsos puros. É isso, precisamente, o que sempre interessou a Grotowski em seu trabalho com o ator. (RICHARDS, 2012, p. 115)

A observação dos jogos sociais e da vida cotidiana, no entanto, constitui excelente ferramenta para o ator, que deve concentrar seu olhar não apenas no modo como as pessoas agem, mas também em si próprio, incorporando o auto-conhecimento e a empatia como recursos que certamente contribuem para a ampliação de suas capacidades artísticas. A posição do espectador também passa por este lugar da identificação com o outro e é por isto que muitos consideram o realismo a melhor via para a comunicação e conexão com o público:

Com certeza os espectadores têm o desejo de ver algo de qualidade, o desejo de que algo escondido lhes seja revelado, e até mesmo a esperança inconsciente de que possam ver “algo” desconhecido sobre si mesmos. O ator tem o dever de revelar a eles esse “algo”, que não foi observado ou que ficou esquecido. Se o ator executa a linha de ações físicas com verdade, ele vai viver no palco de maneira genuína, e isso, por sua vez, acabará sendo percebido pelo espectador. (RICHARDS, 2012, p. 117)

Em texto complementar, “Sobre o método das ações físicas”, originado de uma palestra de Grotowski, além de suas considerações a respeito da pesquisa de Stanislavski, temos claras distinções entre o que se configura como “ações físicas”, “atividades”, “gestos”, “movimento” e suas resultantes na expressão exterior. É mencionada também a relação entre “Sintomas”, “Signos” e “Símbolos”. Como no texto de Richards, aqui também está presente a reflexão sobre a necessidade de se chegar ao âmago dos “impulsos puros”, lapidando os sinais externos até se chegar em ações essenciais.

Repetição

Voltamos à atividade prática, partindo das mesmas imagens dramáticas que utilizamos na aula anterior. Apresentamos novamente nossas propostas de ação e refletimos em grupo sobre formas mais claras de passarmos as intenções que retiramos das imagens. As cenas tornaram-se mais curtas e adquiriram um pouco mais de potência dramática.

Referências

GROTOWSKI, J. Sobre o método das ações físicas. Disponivel em: <http://www.grupotempo.com.br/tex_grot.html>. Acesso em: 31 Março 2015.

RICHARDS, T. Ações “Realistas” na Vida Cotidiana. In: RICHARDS, T. Trabalhar com Grotowski sobre as ações físicas. São Paulo: Perspectiva, 2012.

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Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

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