Partida

Ela passou com os olhos marejados, rareando os passos para ver se o tempo passava mais lento. Não havia ainda sinal de partida, nenhum aceno de adeus. Despedia-se de um prédio vazio. A memória cheia de pessoas que ainda não haviam partido. Era a primeira a descobrir que as paredes asfixiavam, que os abraços prendiam e que os pincéis… Ah, os pincéis poderiam ser armas nas mãos de qualquer um, em qualquer manhã. Pegou então seu arsenal artístico e, sem mais hesitar, irrompeu pela porta afora adentrando o mundo inteiro.

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Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

2 Comments

  • KK on 16 de setembro de 2015

    Uma poetisa de que gosto muito, simultaneamente à esse post, publicou em seu perfil o poema abaixo.

    JUSTIFICAÇÃO DE DEUS
    Leonardo Fróes
    o que eu chamo de deus é bem mais vasto
    e às vezes muito menos complexo
    que o que eu chamo de deus. Um dia
    foi uma casa de marimbondos na chuva
    que eu chamei assim no hospital
    onde sentia o sofrimento dos outros
    e a paciência casual dos insetos
    que lutavam para construir contra a água.
    Também chamei de deus a uma porta
    e a uma árvore na qual entrei certa vez
    para me recarregar de energia
    depois de uma estrondosa derrota.
    Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
    no ponto de desespero total
    em que uma flor se movimenta ou um cão
    danado se aproxima solidário de mim.
    E é ainda a palavra deus que atribuo
    aos instintos mais belos, sob a chuva,
    notando que no chão de passagem
    já brotou e feneceu várias vezes o que eu chamo de alma
    e é talvez a calma
    na química dos meus desejos
    de oferecer uma coisa.
    (De Sibilitz, 1981)

    Paola, obrigada. Pelo pulsar, e pelo sentir <3

    • Paola Giovana on 16 de setembro de 2015

      Ah, nega! Obrigada pela sensibilidade e paciência de sempre me ler. =D

      E que coisa bela este poema, hein! A força das coisas em si, da existência e de qualquer coisa a que chamamos de deus, muitas vezes é maior que a força das palavras.

      <3

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