Proposta de Direção – As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant / 1º Ensaio – Fundamentos de Direção – DB05E01

Para este Diário de Bordo aproveitarei a proposta de direção que já foi entregue ao professor. Nela falo sobre a escolha do texto, o primeiro ensaio e as ideias iniciais, além de mencionar alguns fundamentos teóricos nos quais pretendo me aprofundar ao longo do processo. A imagem do post foi retirada do site Alt Screen.

A escolha do texto

É praticamente impossível dissociar o processo criativo do ser criador, visto que toda escolha implica em preferências e filtros, por mais objetivamente que nos ponhamos frente a determinada proposta. Além do mais, somos um tanto quanto mais dedicados quando encontramos motivações que nos tocam, seja ecoando ou atormentando nossas convicções. Tendo em vista este caráter subjetivo pelo qual passam nossas escolhas e assumindo-o, relato o processo de definição da peça a ser trabalhada na disciplina de Fundamentos da Direção Teatral.

Quando me deparei com o curto período para escolher uma peça, pensei nos autores que me instigavam, seja por já ter lido suas obras ou apenas por ter ouvido falar. Incialmente pensei em Hilda Hilst, Caio Fernando de Abreu ou Jean-Paul Sartre. Em uma semana apenas eu deveria encontrar os textos, lê-los e decidir qual trabalharia. Não foi fácil passar os olhos em um bocado de textos interessantes, inclusive de outros autores. Dois, no entanto, me prenderam e foi impossível não chegar até suas últimas linhas: “Entre Quatro Paredes” (Sartre) e “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant” (Rainer Werner Fassbinder). Enquanto a peça de Sartre me encantou por sua capacidade de materializar seus conceitos filosóficos, o texto de Fassbinder me intrigou por trazer a homossexualidade feminina em uma personagem bem sucedida profissionalmente e cheia de contradições em sua vida pessoal.

Além da temática de “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, considero que a própria condição de seu autor como artista do cinema e do teatro também me seduziram, devido às minhas próprias aspirações de compreender melhor as particularidades destas duas linguagens, de modo a intensificar meus processos criativos e ampliar minhas possibilidades expressivas.

Como se trata de minha primeira experiência com a direção teatral e considerando a ausência de uma intimidade com a linguagem do teatro (além daquela que se adquire pelo gosto e interesse como espectadora e iniciante na atuação), considero que o grande desafio será administrar todos os recursos específicos à encenação, principalmente no que se refere à espacialidade, diferenças no uso do som e da iluminação e solução de problemáticas que surgem nos momentos em que o texto se faz cena.

O autor

Rainer Werner Fassbinder nasceu em 1945 na Alemanha. Atuou no cinema e no teatro em funções diversificadas, trabalhando como ator, diretor, produtor, roteirista, entre outras atividades. Apesar de sua morte prematura, aos trinta e seis anos, deixou um legado de cerca de quarenta e três filmes, sendo figura importante para o denominado “Novo Cinema Alemão”, cujas influências encontram-se cravadas no Manifesto de Oberhausen e na insatisfação dos jovens cineastas com os rumos que tomavam o cinema em seu país no período pós-guerra.

Escreveu também diversas peças para o teatro, dentre as quais “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, que faz jus à sua frequência de criação de personagens femininas e personagens gays, embora a homossexualidade em si não seja o tema principal de suas obras.

As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (1972)

A peça traz como protagonista a estilista bem sucedida Petra Von Kant, cujas contradições se revelam ao longo história, onde a personagem se vê em situações que destoam de suas falas. Ela é amparada pelo auxílio constante de Marlene, cujo apoio se dá não apenas nas tarefas de casa, mas também no próprio trabalho de Petra (Marlene faz inclusive os desenhos de suas coleções de roupas). Embora precise de Marlene, Petra quase sempre a destrata.

Após apresentar sua visão sobre seus relacionamentos passados (um marido que já morreu e outro do qual se divorciou recentemente) em conversa com Sidônia e se proclamar livre e autossuficiente, Petra acaba apaixonando-se subitamente por Karina, a qual há pouco foi apresentada por sua amiga. O que vemos em seguida é justamente a dependência emocional da estilista dentro do relacionamento que se desenvolve entre ela e Karina. Isto marca não apenas o processo de emergência das contradições da personagem, como desemboca também em seu descontrole e, podemos dizer, decadência emocional, a qual somente começa a ser elaborada pela protagonista ao final do texto, quando esta novamente se coloca em posição de superioridade e controle no que parece ser o início de um novo relacionamento afetivo.

“As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, escrita originalmente para o teatro, foi adaptada pelo próprio autor e transformada em filme. Neste ponto a obra também se insere como relevante para minha pesquisa individual, tangenciando o tema das relações entre as linguagens cinematográfica, literária e cênica.

As atrizes

Pouco antes de escolher o texto, fui abordada pela Karla, que me perguntou se já tinha algo em mente para dirigir, pois gostaria de trabalhar comigo por perceber confluências de pensamento. Apresentei para ela minha dúvida entre o texto de Sartre e o de Fassbinder, e logo que me decidi pelo último enviei a ela o texto para avaliação. Ela gostou da proposta e assim iniciou nossa conversa sobre o trabalho de direção. Ainda faltava pelo menos uma atriz e convidei a Isabela, apresentando verbalmente o texto para ver se ela tinha interesse. Desde que comecei a conversar com as atrizes deixei clara a intenção de que o processo fosse colaborativo, expressando minha crença no ator como ser criador fundamental para enriquecer as possibilidades de encenação de um texto.

Em nosso primeiro encontro optei por uma leitura em grupo, para ficarmos mais íntimas da história, conversarmos a respeito de nossas impressões e até mesmo vislumbrar alguns direcionamentos. Embora partindo do texto, tenho em mente trabalhar também a preparação das atrizes através de propostas corporais que as auxiliem a se aproximar das sensações e situações das personagens. Ao fim do encontro propus a elas que já começassem a observar nas pessoas próximas e até em si mesmas características que se assemelham ao comportamento de Petra e Karina.

Música e Direção

No filme de Fassbinder a música tem papel importante, tanto por ilustrar como por intensificar os momentos mais fortes, como quando Karina deixa Petra, por exemplo. Em nosso processo, a música tem sido fonte de inspiração e apoio para a construção das personagens e para o desenvolvimento da estética desejada.

A trilha original do filme tem a presença de músicas dos Platters, Walker Brothers e Verdi, o que faz com que a história se localize de certo modo em um tempo específico, a década de 70. Embora esta opção do autor/diretor defina um tempo relativamente exato, acreditamos que a história de Petra Von Kant tenha potência suficiente para ser expressiva independente de um período histórico ou lugar pré-definidos. A peça trata principalmente das relações de poder que se estabelecem entre os indivíduos, especialmente nos relacionamentos afetivos. Tema, pois, universal, ainda que a ferramenta de instituição do poder, no caso do texto, seja predominantemente o dinheiro.

Considerando a atemporalidade da peça a primeira opção estética declarada é não nos restringirmos a um tempo e espaço rigidamente marcados, o que nos oferece a liberdade de até mesmo misturar elementos ou objetos que seriam vistos de modo anacrônico em outros contextos de demarcação histórica. Assim foi introduzida no processo, a nível de inspiração e possível opção para trilha, a música de Alice Caymmi. Neta de Dorival Caymmi, herdou a potência vocal de sua família (por vezes lembrando a voz de Nana Caymmi), mas agregou ao estilo “antigo” de cantar arranjos com uso de sintetizador e batidas peculiares, o que nos proporciona uma experiência de temporalidade mista e deslocada, justo o que nos cabe nesta escolha estética.

A opção por uma temporalidade suspensa ou indefinida nos auxilia também a sintonizar com o distanciamento ou estranhamento que Fassbinder alcança com o filme – dentre as referências de pesquisa, houve um autor que classificou o filme como um “melodrama distanciado”. Um distanciamento que não é, no entanto, completo, pois há apelo emocional à identificação do espectador; seja com as situações das personagens ou com seus sentimentos que passam pela obstinação, interesse, dependência emocional, incoerência entre ideologia (discurso) e ação, solidão, abandono, rejeição, ilusão, ou seja, várias das vicissitudes às quais estamos sujeitos ao viver em um mundo de relações muitas vezes duvidosas.

Ainda que o texto, por sua universalidade, dote-nos de certa liberdade de interpretação/tradução para a cena, há certas âncoras materiais que saltam aos nossos sentidos e parecem indispensáveis para a caracterização de “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, quais sejam: o telefone de Petra, a vitrola, o gim, e até mesmo Marlene, objetificada a ponto de nem mesmo ter falas durante a ação.

Outros temas ainda são objetos de estudo neste princípio do processo: a incomunicabilidade ou isolamento das personagens; as diversas projeções de Petra, bem claras ao tentar encontrar de todo modo alguma característica sua em Karina ao conhecê-la; a instabilidade emocional que parece ser geracional, presente também na mãe e na filha de Petra, entre outros sobre os quais ainda não nos aprofundamos.

Teorias e Desafios

O maior desafio desta proposta de direção, além do já mencionado a respeito da ausência de uma experiência prévia na direção teatral, é a adequação ao limite de tempo de apenas quinze minutos para a apresentação. As personagens e a história possuem sutilezas e complexidades que ampliam suas possibilidades de significação e impacto no espectador. A princípio, parece sempre uma perda a tentativa de condensar a história neste curto período de tempo, porém a visão cinematográfica de edição, muito próxima da idéia de montagem no teatro, pode nos auxiliar neste dilema de escolher quais partes da ação são indispensáveis em sua totalidade, quais podem ser suprimidas sem grandes efeitos e quais devem ser encurtadas.

Como amparo teórico para orientar estas decisões tão complexas, tenho a pretensão de relembrar as teorias de Michel Foucault a respeito das instituições de poder e seus reflexos no espaço e no corpo, estudar o que já se pensa no campo das artes cênicas sobre o ator-criador, além de me informar mais sobre os processos de encenação, direção e preparação de atores.

Referências

1982: Morre o cineasta alemão Fassbinder. Deutsche Welle. Disponivel em: <http://www.dw.de/1982-morre-o-cineasta-alem%C3%A3o-fassbinder/a-571644>. Acesso em: 14 Abril 2015.

KÜRTEN, J. Novo Cinema Alemão comemora 50 anos. Deutsche Welle, 2012. Disponivel em: <http://www.dw.de/novo-cinema-alem%C3%A3o-comemora-50-anos/a-15787565>. Acesso em: 14 Abril 2015.

MILAN, P. As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972). Segundo Plano – Página digital de cultura cinematográfica, 2015. Disponivel em: <http://segundo-plano.com/filme-as-lagrimas-amargas-de-petra-von-kant/>. Acesso em: 15 Abril 2015.

OLIVEIRA, R. A. D. O Cinema Alemão Entre a Arte e a Indústria. Cinema Europeu, 2014. Disponivel em: <http://cinemaeuropeu.blogspot.com.br/2014/04/o-cinema-alemao-entre-arte-e-industria.html>. Acesso em: 14 Abril 2015.

SANTIAGO, L. Crítica | As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (1972). Plano Crítico, 2014. Disponivel em: <http://www.planocritico.com/critica-as-lagrimas-amargas-de-petra-von-kant-1972/>. Acesso em: 15 Abril 2015.

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Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

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