Breves reflexões sobre o filme “A Chegada”

Ontem assistimos “A Chegada” (2016 – Dir.: Denis Villeneuve). Poderia também ser chamado “A Espera”, por causa dos inúmeros planos que criam momentos de tensão e expectativa sobre como seriam os extraterrestres; tensão que não se resolve satisfatoriamente por meio das imagens, embora não se deixe de mostrar brevemente os alienígenas por inteiro quase ao final do filme. Outros incômodos são o close mais que evidente na aliança de Louise ao início e alguns enquadramentos com pouquíssima iluminação (quanto a isto, confesso a necessidade de assistir novamente para tentar compreender se havia alguma intenção nesta escolha).

À parte estas questões, mais relacionadas às escolhas de direção, “A Chegada” traz tema e estrutura narrativa muito interessantes, que se revelam e se encaixam à medida em que a própria protagonista desvela a linguagem dos aliens. Em outros termos, é como se a concepção a respeito da língua circular e atemporal dos outros seres nos fosse transmitida também através da organização da narrativa, a qual chega quase a adquirir a tridimensionalidade circular da expressão visual do novo código linguístico ao fragmentar a história de Louise, sua filha e marido; intercalando presente, passado e futuro de modo a organizá-los não-linearmente na estrutura temporal linear da sequência de imagens.

Assim como se argumenta no filme que a linguagem determina as operações do pensamento e que o contato com outras linguagens nos oferece perspectivas diversas sobre o mundo e a existência (e, no caso, também sobre o tempo), “A Chegada” consegue ampliar nossas abordagens aos estímulos da percepção, o que torna problemática a “tradução” de uma compreensão mental mais integral em nossa língua tão condicionada a uma ordem de elementos com funções previamente delimitadas. Isso gera uma insatisfação com a comunicação que leva a pensar que a melhor reflexão sobre todo o filme e suas questões só seria expressa através de um símbolo dos próprios heptápodes, que conecta as instâncias do tempo, das dimensões e da existência num achatamento que condensaria tudo o que houvera, há e haverá em um único instante do agora somos.

Sobre o Autor

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Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

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