Cartas

Belo Horizonte – 09 de março de 2011

Querida Paola,

Lembro de quando eu havia vivido metade da vida que vivi até agora. Naquela época ainda se escrevia muitas cartas, poucos emails. Na época de Clarice muitas mais, eu sei. Agora não sei se me recordo como se escreve uma carta… Penso que é preciso considerar a distância e o tempo gastos para que ela chegue até aí e você possa ler. Acho que preciso escrever coisas menos perecíveis e superficiais, portanto. Estou tentando! Falar sobre algo que está essencialmente na memória e não se vê ou se toca há muito tempo é um pouco complicado.

Não estou dizendo que há cerca de 12 anos que não escrevo cartas. Escrevo, mas elas não são cartas como as cartas de verdade. Não têm esse cabeçalho, não tem você no começo e nem falam de coisas que estão para acontecer amanhã. Amanhã você entra no meu Facebook e olha se aconteceu o que eu falei hoje… Ontem não era assim. Você só sabia dias antes ou depois das coisas acontecerem, nunca na data certinha. Para isto existem os telegramas. Existiam. Hoje existe o email. E o telegrama…

Bom, quando eu escrevia cartas, costumava ser mais profunda, mais poética, mais cuidadosa. Agora não sei se sei escrever cartas direito ainda. Não sei se tenho aquela ansiedade de contar tudo o que conseguia, quase tudo o que pensava e sentia… Não sei se ainda existem selos pra eu passar a língua e enviar um pedacinho de mim junto com o pedaço da minha alma que seguia assinado com a minha própria letra e ficava lá, perpetuado para que você relesse e relembrasse instantaneamente do que me acontecia no momento.

O que posso dizer sobre a minha vida de agora? Ela voa, voraz. O tempo corre e eu fico tentando alcançar os ponteiros para ter mais tempo de ver o tempo correr. Eu faço listas, refaço, organizo e tento classificar algumas coisas. Nem sempre dá certo. Às vezes o acaso me faz parar a obsessão por métodos e classificações para agir e reagir às prioridades da minha e de outras vidas. Mas as listas são boas, para eu saber o que eu já quis e já conquistei. Hoje sei que muitas das minhas metas e desejos de anos atrás foram alcançados.

Estou formando em uma área que gosto demais: Comunicação. Antes eu fazia Direito, mas não fazia direito, não era pra mim. Eu queria fazer música, mas não tinha conhecimentos teóricos suficientes e minha mãe pensava que eu morreria de fome sendo artista. Hoje entendo que não há saída: preciso criar, mesmo faminta. Seja música, letra, imagem, filme. Eu pre-ci-so criar. É por isto que escrevo agora uma carta para você. Pra que você me ajude a criar uma carta, para que me mostre que ainda sou capaz de fazer algo que há anos não faço.

Não dá para falar tudo o que está acontecendo na minha vida. Eu perderia os assuntos das próximas cartas (que nem sei se te escreverei). Mas, se você quiser muito saber quem eu sou agora, o que faço, o que penso e sinto, me escreva de volta. Será um prazer te reconhecer, sentir seu cheiro novamente, olhar naquele espelho quebrado todas as faces luminosas ou sombrias do que você é, do que eu fui e do que serei.

Um beijo, um desejo e um longo abraço em você,

Paola Giovana.

Sobre o Autor

facebook-profile-picture
Paola Giovana
Gosto de me reinventar, sentir o sabor do novo e das infinitas possibilidades da existência. Tenho tendência ao vício pelas coisas boas, obsessão pelo conhecimento e amor pela arte. Sob o signo de Capricórnio, meu destino é conquistar!

Sem Comentários

O que você acha disso?